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Introdução

O que é Egiptologia?

A Egiptologia pode ser resumidamente definida como o estudo da antiga civilização egípcia. Seu estudo abrange “tradicionalmente” o período pré-histórico e avança até o advento da conquista árabe, no século VII d.C. Digo “tradicionalmente” porque nunca houve uma tentativa formal de fixar-se o escopo de interesse da Egiptologia. Além disso, estão cada vez mais populares as pesquisas que lidam com fontes árabes medievais sobre o Egito pré-islâmico, ou pesquisas envolvendo o Egito antes de sua ocupação pelos seres humanos (clima, solo, etc.). Há mesmo quem participe de pesquisas sobre o Egito contemporâneo – por exemplo, seja sobre egiptomania, ou folclore egípcio moderno, entre outros temas – contribuindo para o diálogo académico, embora trate-se de pesquisas de disciplinas externas em colaboração com a Egiptologia.

Necrópole de mastabas do Reino Antigo – Giza

Dentro do recorte cronológico dito tradicional, a Egiptologia abrange uma vasta gama de áreas de estudos. Trata-se de um processo de reconstituição daquela civilização a partir de análises linguísticas, literárias, arqueológicas e artísticas. 

O diálogo interdisciplinar com profissionais de outras áreas também é fundamental para o desenvolvimento da disciplina, especialmente com a participação da Arqueologia, Geologia, Botânica e Química. Apesar de ter se desenvolvido essencialmente sob os seus aspectos linguísticos, a maior colaboradora da Egiptologia é a Arqueologia. As principais universidades e museus ligados à Egiptologia possuem mandatos arqueológicos no Egipto e Sudão. Embora o trabalho de campo seja visto pelos leigos como um sinónimo da profissão, a verdade é que poucos egiptólogos realmente participam sistematicamente dessas expedições. O trabalho de campo no Egipto tende a ser bastante romanceado pelo público em geral. Contudo, ele é árduo e ocasionalmente pode ser perigoso. Além disso, a verdade é que trabalha-se muito mais durante a preparação e divulgação dos relatórios de pesquisa produzidos posteriormente.

O que é um egiptólogo?

O egiptólogo é um estudante ou professor que dedica-se a um ou mais ramos da Egiptologia. Em linhas bem gerais vamos assumir que existam egiptólogos “amadores” e “profissionais”.

O primeiro caso abrangeria então todos os indivíduos que – independentemente de sua formação académica – estudam um ou mais aspectos da Egiptologia e produzem pesquisas científicas válidas. Nesse caso, “amador” não é sinónimo de “curioso”. Note bem que os primeiros egiptólogos foram sim amadores, uma vez que ocupavam-se de outras profissões e dedicavam-se à Egiptologia apenas como uma ocupação parcial. Seguindo então essa lógica, egiptólogos “profissionais” seriam aqueles que – independentemente de sua formação educacional – vivem do ensino ou pesquisa de algum aspecto da Egiptologia. 

Nosso herói, no interior do complexo da pirâmide de Djoser

Mas a formação académica é extremamente relevante e valorizada. Um egiptólogo não pode esperar tornar-se profissional sem conhecimentos essenciais como História do Egipto ou o domínio perfeito de, ao menos, uma forma da escrita egípcia. Em adição a isso, o processo selectivo de museus e universidades internacionais têm início a partir de um exame de currículos. Isso exclui – ou deveria excluir – a possibilidade de profissionalização de um indivíduo com formação precária, ou sem a formação apropriada.

Outros instrumentos eficientes de controlo da excelência dos egiptólogos profissionais advêm do facto de que o Supreme Council of Antiquities (SCA) do Egito limitou os mandatos arqueológicos aos profissionais oriundos de instituições reconhecidas internacionalmente, principalmente museus e universidades. Por fim, os congressos internacionais, revistas e jornais científicos, através de um rigoroso processo de “peer-review”, encarregam-se de reconhecer naturalmente aqueles egiptólogos que porventura não mereciam profissionalizar-se, mediante o julgamento do mérito de sua colaboração em seus espaços. Portanto, maus profissionais acabam por serem isolados academicamente.

A formação do egiptólogo

A grande maioria dos egiptólogos profissionais possui um grau académico de doutor (PhD) em Egiptologia. Existem alguns poucos cursos de graduação em Egiptologia no mundo, por isso é muito comum que egiptólogos iniciem sua carreira académica em áreas correlatas, como Arqueologia e História. Nesse caso, o caminho a ser adotado é buscar-se uma especialização em Egiptologia numa pós-graduação.

Dentre as universidades que oferecem cursos de graduação e/ou pós-graduação em Egiptologia vigoram currículos muito diferentes. Muitas vezes até a metodologia e didática podem divergir entre as instituições. Porém, a maioria dos cursos converge na exigência do domínio sobre uma ou mais formas da escrita egípcia. O estudo da língua egípcia abrange a escrita hieroglífica e hierática, bem como suas variantes cronológicas. Esse estudo também é dividido em fases específicas, como o egípcio médio (clássico), egípcio tardio, demótico e o copta.

Muitos programas de universidades estão voltados para especializar os alunos ou em línguas egípcias, ou em arte e arqueologia do Egito antigo. Egiptólogos que especializam-se em línguas dominam perfeitamente o egípcio clássico e ao menos outras duas línguas/escritas dentre as quais: egípcio tardio, hierático, demótico e copta. Egiptólogos que optam pela arqueologia precisam especializar-se em arte e arquitetura de diferentes períodos da história egípcia. Entretanto é recomendável que o estudante busque uma base sólida em ambas as áreas de conhecimento, independentemente de qual seja a sua preferida.

O estudo dos quase 4000 anos de história egípcia antiga tende a ser subdividido em períodos. A abordagem desses períodos pode debater principalmente elementos culturais e religiosos. Alguns cursos mais gerais oferecem ainda noções de arqueologia e métodos de trabalho de campo, ou uma visão geral da antiguidade no Mediterrâneo Oriental. Outros cursos, por outro lado, podem não incluir nada que não seja estritamente ligado ao Egito. Devido às diferenças da grade curricular, os estudantes são estimulados a buscar novas universidades para as etapas seguintes de sua formação e a mobilidade académica é profundamente valorizada e estimulada por essas instituições.

Como preparar-se?

Estudantes que porventura anseiem pela oportunidade de estudar o antigo Egito precisam estar preparados. A Egiptologia é um processo de aprendizado eterno. Se a ideia de passar o resto da vida aprendendo coisas novas parece assustador ou desanimador, então certamente essa não é a sua profissão ideal.

Inicialmente é necessário dominar as línguas estrangeiras tidas como essenciais para a área. A saber: inglês, francês e alemão. As principais obras de referência em qualquer recorte temático ou em qualquer recorte cronológico sobre o Egito antigo foram produzidas nessas três línguas. Do mesmo modo, nessas três línguas são produzidas as obras mais recentes e relevantes em quaisquer recortes temáticos ou cronológicos que se espera estudar sobre o Egito antigo.

Em algum lugar de Meidum

Aprender árabe também é interessante, num momento posterior, especialmente para aqueles que desejam participar de missões arqueológicas no Egito. O convívio com falantes de árabe eventualmente exigirá que se aprenda ao menos o essencial para situações quotidianas. Além disso, o parentesco linguístico entre o árabe e o egípcio antigo torna a compreensão da língua egípcia antiga mais fácil (e vice-versa).

Línguas clássicas (latim e grego) ou línguas do Mediterrâneo Oriental são também importantes para aqueles que propõe-se a desenvolver estudos comparativos, ou a especializarem-se em períodos mais tardios.

É importante possuir uma boa base nas ciências humanas, principalmente História e Antropologia. A capacidade de escrever de maneira simples, clara e agradável é uma necessidade, e conhecimentos de informática são cada vez mais necessários para otimizar as pesquisas… Finalmente, leiam sempre sobre aspectos do Egito antigo e o Mediterrâneo Oriental antigo (história, religião, arte, literatura, etc).

 Créditos fotográficos:

Fotografias nesta página cedidas por cortesia do autor (Ronaldo G. Gurgel Pereira).